27.1.06

O Provedor do Incontinental responde aos leitores - II

Joseph R., provedor do Incontinental, tentando descobrir quem lhe roubou a parte de cima do disfarce de capuchinho vermelho, na última festa do blog.

"Tenho lido o vosso blog com atenção. Enquanto outros promovem o aprofundamento da cultura com referências a artes e espectáculos ou reflectindo sobre a actualidade política, os vossos textos são pobres e superficiais, incidindo sobre temas mundanos ou sobre aspectos laterais dos poucos assuntos que poderiam interessar-me. As referências à arte e aos acontecimentos são pouco analíticas. No fundo, não me sinto intelectualmente estimulado pelo vosso blog e sugiro uma mudança de rumo".
Renato Linho, Lisboa
Caro leitor descontente,
mil perdões por ter sujado os olhos. Penso que a sabedoria deve consumir-se em doses moderadas ou o país rapidamente sucumbiria de enfartamento. Lembro-lhe que este blog tenta servir Portugal (daí receber generosos subsídios de todos os quadrantes políticos e titulares de poder, permitindo ao seu autor escrevê-lo a partir de um iate em águas internacionais). Saberá certamente que Portugal é um país com uma taxa de penetração da cultura muito baixa, além de sofrer de reduzidíssima auto-estima. Ora, esses analfabetos deprimidos andam estranhamente ausentes do Portugal dos blogs, onde todos lêem, citam, analisam e opinam com o mesmo furor com que o marinheiro irrompe pelo bordel depois de seis meses no mar. Quanto à auto-estima, o blogger português médio faz com que qualquer conversa de José António Saraiva pareça o diário de um adolescente com borbulhas. Os nossos bloggers parecem mesmo um satélite do seu próprio ego. De onde vêm, então, estas pessoas que parecem não andar nas ruas? Claramente, viveram toda a vida em casulos domésticos, esperando pacientemente a alvorada da internet.
Como calcula, estimado leitor, a imensa maioria do povo não pode receber a cultura que v/ ex.a espera aqui encontrar de uma só vez, tal como um amish não pode, de um momento para o outro, iniciar-se na filmografia de
Ilona Staller. A nossa linha editorial ligeira não consente na difícil digestão de um Borges ou de uma Yourcenar. Por outro lado, a crónica depressão lusitana reclama piadas fáceis com assuntos corriqueiros. Mas não perca mais tempo. Vá! Deixe esta pasmaceira e faça já uma citação de Habermas no seu próprio blog, para podermos abrir a boca de espanto. À noite, exija irado, no clube de vídeo, que tirem as legendas à colectânea de cinema escandinavo. Assim, brilhará com os demais e poderá deitar-se satisfeito, lendo, na cama, o seu exemplar do "24 horas".