6.7.06

D. Afonso Henriques: uma investigação séria

Eugénia Cunha, investigadora da Universidade de Coimbra, quis espreitar o túmulo de D. Afonso Henriques. Aquilo que seria a suprema delícia de um qualquer necrófilo voyeur (e quem não o é?) constitui, para esta mulher, apenas objecto de estudo. Foi contactada a direcção regional do IPPAR, que autorizou o mórbido peep show. Porém, faltava ainda a autorização de uma outra entidade, inteiramente distinta da primeira: a direcção nacional do IPPAR, que, à última hora, cancelou a empreitada. Da nossa parte, por amor à ciência - e não para aplacar demónios fetichistas -, resolvemos ignorar as querelas administrativas do Estado e, a coberto da noite, fomos alegremente profanar a última morada do primeiro rei. Batemos, por educação, mas Sua Alteza demorou a atender. "Peço desculpa, pensei que eram Jeovás ou aqueles arianos assustadores, os Elders", justificou-se o monarca. Parecia bem, apesar de exalar um hálito intenso a mofo, normal para quem já passou há muito das 800 primaveras. Sendo este o primeiro avistamento de pessoas desde 1185 (D. Afonso Henriques afirma mal ter sentido as trasladações do século XVI), foi enorme a sua curiosidade sobre a vida nos dias de hoje. Levantou o sobrolho ao aperceber-se da criminalização das ofensas corporais às mães, embora tenhamos explicado estar a coberto da prescrição. De Coimbra, cidade onde viveu e morreu, guarda boas recordações, principalmente dos tempos da tuna, onde foi pandeireta, e das manifestações que, ainda jovem, liderou contra as propynas de Castela, ainda antes da criação da Universidade, "à cautela". Quisemos também saber se, junto ao rei, repousa efectivamente a sua mulher, D. Mafalda. "É ela, é, mas já não me dá festas como antigamente. Na verdade, está mouquinha e a bacia já não lhe permite grandes aventuras, mas é uma boa companhia". Aproveitando o tema da saúde, fizemos um teste rápido ao nosso interlocutor, que não revelou problemas cardíacos (talvez por já não ter coração), embora padeça de extrema osteoporose. No final, já de saída, fomos surpreendidos por um jornalista da TVI, que também quis aproveitar o grande furo jornalístico. Felizmente, manteve-se fiel à linha editorial da estação e, reproduzindo a cartilha conhecida das entrevistas a velhinhas centenárias, limitou-se a perguntar a D. Afonso Henriques, primeiro rei de Portugal: "E então? Quando era novo era muito namoradeiro? Tinha muitas namoradas?".